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Bux e Looks

Uma reflexão sobre a crítica ao consumo

Cena do filme As patricinhas de Beverly Hills.


Vejo muitas influencers e pessoas famosas comentando nas redes sobre o consumismo, sempre com conotação negativa e indicando que o correto seria a diminuição do consumo, o consumo consciente, deixar de comprar por comprar. E então surgiu a questão: é errado ser consumista?

A lógica de consumo que vivemos hoje foi iniciada láaaa atrás, no século XVI. Foi nesse momento da história que se consolidou a transição da era de costume para a era da moda, que trouxe o valor novidade à roupa. Ou seja, as peças passaram a ficar velhas mais rápido, a perderem seu valor assim que eram usadas pela primeira vez; afinal, todos já tinham visto. Parece familiar?

Isso quer dizer que o consumismo existe há cinco séculos. Não é pouca coisa, não rs. Já falei disso em outro post, sobre gastar roupas. O Renascimento instituiu a moda como a vemos até hoje, com a vontade de ter, de mostrar, e a visão da roupa como algo descartável.

De fato, é importante entender que não é preciso comprar para ser feliz ou se sentir bem vestida só se for usando roupa nova. Acho que, na verdade, essa é a vertente errada do consumismo: fazer as pessoas acreditarem que só estarão completas se estiverem vestindo roupas novas.

Por outro lado, não vejo sentido nessa cobrança para que as pessoas parem de comprar. Não vejo problema algum em comprar, se isso te faz feliz e, é claro, desde que não contraia dívidas e consiga administrar suas finanças. Se sobrou um pouco do salário e você quer um vestido novo que viu na vitrine, por que não?

O grande problema da nossa sociedade é o imediatismo. Vejo uma roupa sendo usada por uma influencer, quero ter uma igual a-go-ra. Uma marca lança um modelo novo, eu pre-ci-so ter aquele modelo pra ontem. Isso é um problema porque incute no nosso inconsciente que aquilo é a novidade, é a nova moda, e eu preciso me inserir nela o mais rápido possível.

Isso não é culpa nossa. O povo do século XVIII já vivia sob essa lógica rs. 

Mas penso o seguinte: se você tem muitas roupas, gosta de comprar, mas tem uma boa variação das peças que possui, usa todas elas, umas mais, outras menos, qual o problema, né? Afinal, você não está fazendo mal a ninguém.

Eu sei que é difícil alguém que tem muita roupa usar tudo que tem (indireta pra mim mesma rs). Mas aí vem um lado bem legal disso tudo: poder doar com frequência para pessoas que realmente precisam. É muito bom fazer aquele detox e ainda ajudar alguém. :)

Outro ponto positivo que serve como dica também é ver de que marcas você está comprando. Muitas vezes, uma compra pode estar ajudando uma pessoa super talentosa e que luta pra manter sua marca de pé. Considero isso valorizar o trabalho de alguém.

Resumindo: não estou mandando ninguém sair comprando ou justificar suas compras e contas desequilibradas! Haha Só acho essa cobrança e apontar o dedo para o outro muito chata... Cada um com suas escolhas, certo?

:*

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O que é moda para você?

Fiz uma enquete experimental no meu Instagram, perguntando se as pessoas consideravam moda algo fútil. Embora a maioria tenha votado que não, uma quantidade considerável de pessoas votou que sim. E este post é para vocês. J




Para ser bem sincera, eu acho compreensível quando alguém liga moda a futilidade num primeiro momento. Porém, é só analisar a questão com um pouco mais de profundidade que a coisa muda de figura. É isso que vamos fazer agora.

Um pouco de história

Nas sociedades muito anteriores a essa que conhecemos hoje, já existia moda, só que de uma maneira bem diferente. Por muitos séculos, a vestimenta era apenas útil, isto é, servia como cobertura para o corpo, e era passada de geração para geração, marcando o lugar social de quem usava - a chamada era de costume.

No Antigo Egito, a vestimenta estava relacionada à religião e à preparação para a morte; na Grécia, as roupas eram simples e mostravam o corpo, e eram a expressão do indivíduo; só no século IV o corpo passa a ser realmente coberto, após a separação do Oriente e do Ocidente.

Vestido com inspiração na vestimenta grega.


Na Idade Média, usam-se túnicas porque não há distinção de gênero; é a época da valorização da alma, não dos corpos. No final dessa época é que os gêneros começam a se diferenciar, e a roupa masculina encurta devido à maior movimentação.

No século XVI, no Renascimento, acontece de fato o nascimento da moda: as roupas deixam de ser apenas itens materiais e passam a ter um significado simbólico, parte da construção da aparência. Essa mudança está relacionada ao desejo de mudança, à insatisfação com o passado e ao enriquecimento da burguesia.

O Barroco vem com rigidez e dramaticidade, peso e exagero, devido aos acontecimentos religiosos da Inquisição e guerras. A desconstrução da silhueta é uma marca desse período.

Barroco e inspiração na atualidade.


Na França, no século XVIII, a monarquia revolucionou o entendimento de moda e alterou a posição de seu país na escala social. Estabeleceu que a monarquia francesa usaria roupas absolutamente exageradas, maquiagem forte e peruca, de maneira bem caricata - o ideal da beleza artificial.

Com isso, ele conseguiu demonstrar que esse exagero era sinônimo de poder, e os demais países quiseram copiar o novo estilo. A moda instaurada mudou totalmente a política e a sociedade da época.

Exemplo de traje do Rococó.


É claro que, após esse período de excessos, o povo se deu conta da realidade e passou a criticar a monarquia. O excesso começou a ser considerado ridículo e a simplicidade, a ser valorizada.

E hoje?

Dando um salto para a nossa época, podemos ver as coisas de maneira bem diferente. A moda hoje é útil porque nos veste, nos aquece, nos cobre. Mas sua "função" vai muito além disso, e também supera a questão social e política.

Vivemos a era da individualidade. Hoje em dia, você pode ser o que quiser, pode fazer o que quiser, e a moda é sua grande aliada. O modo como você se veste mostra ao mundo quem você é. Sua atitude, sua imagem para a sociedade, são passadas para as pessoas por meio das roupas que você usa. Quer você queira, quer não.

E o que você usa... Foi você mesmo que escolheu? Será?




Quem não se lembra da cena icônica do filme O diabo veste Prada, em que a editora da revista Runway, Miranda Priestly, humilha sua funcionária, Andy, na frente de todos? Andy diz que não vê diferença entre dois cintos muito parecidos, e sua chefe faz questão de fazê-la passar vergonha:

"Ah, certo, entendo. Você acha que nada aqui tem a ver com você. Você vai até o seu armário e escolhe, digamos, este suéter horroroso, porque está tentando dizer ao mundo que se leva muito a sério para se importar com o que você vai vestir, mas o que você não sabe é que a cor desse suéter não é um simples azul, não é turquesa, não é lápis lazuli, ele é azul celeste. E você ignora o fato de que, em 2002, Oscar de la Renta fez uma coleção de vestidos azuis celestes, e acho que foi Yves Saint-Laurent que fez jaquetas militares azuis celeste. (..) O celeste apareceu depois em coleções de 80 outros estilistas e, então, passou para as lojas de departamento e, depois, foi parar em lojas populares, onde você sem dúvida comprou este, numa liquidação. No entanto, este azul representa milhões de dólares em incontáveis trabalhos, e é meio cômico como você pensa que fez uma escolha que a exime da indústria da moda, quando, na verdade, está usando um suéter escolhido para você pelas pessoas desta sala em meio a um monte de coisas." (tradução livre)

É isso. A moda está em todo lugar, e as pessoas que trabalham com moda fazem escolhas por nós, ainda que não enxerguemos isso. Tudo que está à venda está lá por um motivo e porque alguém decidiu que seria assim. 

Ir a uma loja qualquer e escolher uma roupa qualquer apenas para cobrir o corpo pode parecer uma renúncia à moda. Mas você está inserido nela assim mesmo. Acredite.

E, independentemente disso, fazer essa escolha também é uma possibilidade que o nosso mundo individualista permite. Poder usar algo que só você gosta ou escolher não seguir a tendência do momento são características da moda contemporânea. Se formos voltar no tempo, essa escolha não seria nem cogitada. 

Concluindo...

E é por tudo isso que moda não é fútil. A moda é uma representação de cada sociedade, dentro de suas particularidades e características, assim como a arte, a música, a literatura etc. 

É uma visão muito equivocada e restritiva pensar na moda apenas como vestidinhos bonitinhos produzidos para as pessoas consumirem ou em desfiles mirabolantes que ninguém compreende. A moda engloba todos nós, quem curte seguir as tendências, quem consome revistas da área, e também quem odeia falar sobre o assunto.

Não dá pra fugir.




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Já ouvi diversas pessoas usando esta expressão: "gastar roupa". Muita gente argumenta que não se arruma muito para ir ao trabalho ou para ir a um lugar mais simples porque não quer "gastar roupa" dessa maneira.

Mas, afinal de contas, para que serve roupa? Para usar, oras. Para gastar! É ou não é?


Obviamente, você não vai trabalhar com aquele vestido bafo de paetês. Nem vai à padaria de salto agulha. Sempre vamos ter peças que vamos usar menos e de maneira mais criteriosa. 

Mas quantas vezes você compra uma roupa nova e pensa: "Vou deixar para usar quando sair para tal lugar." E aí essa ocasião especial nunca chega e fica lá sua roupa, guardada no armário. Com isso, você acaba usando sempre as mesmas roupas, embora tenha outras novas no armário.

Mais uma vez, não tem problema nenhum em repetir roupa, pelo contrário! A questão é: por que usar aquela blusinha branca de novo se você tem uma coloridona nova no armário? Sem contar que roupa nova dá aquele up na autoestima, né...

Roupa não é para ficar guardada. A gente gasta dinheiro nela, é para ser usada! E reusada, e de novo e de novo! É justo gastar seu rico dinheirinho numa roupa e usar duas vezes na vida? 

Esse questionamento sobre a efemeridade das roupas não é novidade.

Considera-se que o nascimento da moda, tal como conhecemos hoje, aconteceu ao longo do século XVI. Foi deixada para trás a Era de Costume, em que se vestiam as mesmas roupas das outras gerações da família, perpetuando o uso e a condição social dos antepassados.

Com o Renascimento, as pessoas começaram a desejar, nasceu a vontade de ter. E é aí que começa a moda de fato, com a consciência de que as roupas são descartáveis, ou seja, de que usamos e em determinado momento jogamos fora.

Representação da Rainha Elizabeth, no século XVI.

Acredito que, em grande parte, essa necessidade de guardar roupas venha da ideia de que determinadas peças só combinam com determinadas ocasiões. E isso é algo que nos prende muito na hora de criar looks para o dia a dia.

É sempre possível deixar um look aparentemente chique mais despojado; e o contrário também. Atitudes como combinar vestido com tênis, salto com calça esporte, entre outras, nos ajudam a aproveitar melhor as peças e a multiplicar a possibilidade de combinações.


Então, vamos GASTAR ROUPA? Afinal, ela foi feita para isso...



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Sempre que entro em uma loja, faço aquela seleção de peças que desejo experimentar e, com os braços cheios de cabides pendurados, sigo para o provador. Todas as vezes que a roupa cai bem, vem aquela admiração de me achar bonita com a peça, de criar combinações novas fora do meu armário.

Ao mesmo tempo,  olho para a roupa que já é minha, aquela que eu estava vestindo antes de entrar, e já não gosto dela. Vocês também sentem isso? É como se a roupa nova (que nem comprei ainda) perdesse a graça e parecesse feinha perto daquele mundo de novidades. Dá aquela vontade de sair da loja já vestindo a roupa nova...

Fiquei refletindo sobre isso na última vez em que experimentei roupas. Percebi que isso sempre acontece comigo. E por quê, né?

É só um dos modos como o consumismo se manifesta na gente. Fazendo as coisas que não temos parecerem melhores, parecerem necessárias.

Becky Bloom, nossa consumista favorita.

Uma das primeiras menções ao consumismo data do século X (veja bem, século X!), e já destacava o consumo desnecessário em busca de status, para exibição. O desejo de consumir tem significado simbólico (prazer, felicidade...), e é alimentado pelos meios de comunicação.

É um prazer enorme sair do shopping com um monte de sacolas, não é não? Sinceramente, acho que não tem nada de errado nisso, desde que não façamos dívidas que não podemos pagar. O que passei a tentar fazer foi dar valor ao que já tenho, e, sim, achar linda também minha roupa já velhinha.

Fica a dica, viu, pessoal? Comprar a gente pode. Mas vamos valorizar e cuidar do que a gente já tem, combinado?



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Bruna Neves

Bruna Neves

Sou formada em Letras e trabalho no mercado editorial. Minha paixão sempre foram os livros e a escrita. Hoje, sou aspirante a produtora de moda e tento unir a antiga e nova paixão.

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